domingo, 30 de dezembro de 2012

a diferença entre confessar pecados e pedir perdão


Existe uma grande diferença moral entre orar pedindo perdão e confessar os nossos pecados, quer encaremos o problema em relação ao caráter de Deus, quer em relação ao sacrifício de Cristo ou ainda à condição da alma. É muito possível que a oração de uma pessoa envolva a confissão do pecado, qualquer que seja a sua natureza, e assim chegar ao mesmo resultado. Porém, é sempre bom não nos afastarmos da Escritura no que pensamos, dizemos e fazemos. É evidente que quando o Espírito Santo fala de confissão, não quer dizer oração. E é também evidente que Ele sabe que existem elementos morais na confissão e que dela resultam efeitos práticos que não pertencem à oração. De fato, descobrimos amiúde que o hábito de importunar Deus com o pedido do perdão dos pecados revela ignorância a respeito da forma como Deus se revelou na Pessoa e obra de Cristo; acerca da relação em que o sacrifício de Cristo colocou o crente e quanto ao modo divino de alijar a consciência do fardo do pecado e de a purificar da mancha do pecado.

Deus ficou perfeitamente satisfeito, quanto aos pecados do crente, na cruz de Cristo. Na cruz foi feita completa expiação por todo o pecado na natureza do crente e na sua consciência. Por isso, Deus não necessita ainda de mais propiciação. Não precisa de qualquer coisa mais para despertar o Seu coração pelo crente. Não precisamos de Lhe suplicar que seja "fiel e justo", pois a Sua fidelidade e justiça foram gloriosamente patenteadas, justificadas e satisfeitas na morte de Cristo. Os nossos pecados nunca poderão vir à presença de Deus, visto que Cristo, que os levou todos e os tirou, está ali. Contudo, se pecamos, a consciência sente—deve senti-lo; sim, o Espírito Santo far-nos-á senti-lo. Não pode deixar passar um simples pensamento vão sem ser julgado. Então o nosso pecado abriu caminho para a presença de Deus? Terá encontrado lugar na luz pura do santuário? Deus nos livre! O "Advogado" está ali—"Jesus Cristo o Justo", para manter, em integridade inquebrantável, o parentesco em que nos encontramos. Todavia, embora o pecado não possa afetar os pensamentos de Deus a nosso respeito, pode afetar e afeta os nossos pensamentos em referência a Ele ('). Embora não tenha acesso à Sua presença, pode chegar à nossa, da maneira mais triste. Embora não possa ocultar o Advogado dos olhos de Deus, pode encobri-Lo dos nossos. Amontoa-se, como uma nuvem sombria e espessa, sobre o nosso horizonte espiritual, de sorte que as nossas almas não podem desfrutar a claridade bendita da face do Pai. Não pode afetar o nosso parentesco com Deus, mas pode afetar seriamente o dele. Que devemos, pois fazer? A Palavra de Deus responde: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça".

Por meio da confissão desembaraçamos a nossa consciência; o sentimento agradável da nossa posição de filhos é restaurado; a nuvem sombria dissipa-se; a influência desanimadora desaparece; os nossos pensamentos em relação a Deus são corrigidos. Tal é o método divino; e podemos dizer que, na realidade, o coração que sabe o que é ter estado no lugar da confissão sentirá o poder divino das palavras do apóstolo: "Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo PARA QUE NÃO PEQUEIS" (l Jo 2:l).

Em contrapartida, há um meio de orar pedindo perdão em que se perde de vista o fundamento perfeito do perdão, o qual foi lançado no sacrifício da cruz. Se Deus perdoa pecados, tem de ser "fiel e justo" ao perdoar. Mas é evidente que as nossas orações, por mais sinceras e fervorosas que sejam, nunca poderiam constituir a base da fidelidade e justiça de Deus para perdoar os nossos pecados. Nada, salvo a obra da cruz podia conseguir isto. Ali a fidelidade e a justiça de Deus foram plenamente estabelecidas, e isso também com relação imediata aos nossos pecados atuais e a sua raiz na nossa natureza. Deus já julgou os nossos pecados na Pessoa do nosso substituto "no madeiro"; e, no ato da confissão, nós julgamo-nos a nós próprios. Isto é essencial para se alcançar o perdão divino e restauração. O menor pecado por confessar e por julgar, na consciência, manchará inteiramente a nossa comunhão com Deus. O pecado em nós não requer este efeito; porém se permitirmos que o pecado permaneça sobre nós não podemos ter comunhão com Deus. Ele tirou os nossos pecados de tal maneira, que pode ter-nos na Sua presença; e enquanto estivermos na Sua presença o pecado não poderá perturbar-nos. Porém se saímos da Sua presença e comete¬mos pecado, ainda que seja só em pensamento, a nossa comunhão deve, por necessidade, ser suspensa, até que, pela confissão, nos libertemos do pecado. Tudo isto está fundado exclusivamente sobre o sacrifício perfeito e a justa advocacia do Senhor Jesus Cristo.

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