Existe uma grande diferença moral entre orar pedindo perdão
e confessar os nossos pecados, quer encaremos o problema em relação ao caráter
de Deus, quer em relação ao sacrifício de Cristo ou ainda à condição da alma. É
muito possível que a oração de uma pessoa envolva a confissão do pecado,
qualquer que seja a sua natureza, e assim chegar ao mesmo resultado. Porém, é
sempre bom não nos afastarmos da Escritura no que pensamos, dizemos e fazemos.
É evidente que quando o Espírito Santo fala de confissão, não quer dizer oração.
E é também evidente que Ele sabe que existem elementos morais na confissão e
que dela resultam efeitos práticos que não pertencem à oração. De fato,
descobrimos amiúde que o hábito de importunar Deus com o pedido do perdão dos
pecados revela ignorância a respeito da forma como Deus se revelou na Pessoa e
obra de Cristo; acerca da relação em que o sacrifício de Cristo colocou o
crente e quanto ao modo divino de alijar a consciência do fardo do pecado e de
a purificar da mancha do pecado.
Deus ficou perfeitamente satisfeito, quanto aos pecados do
crente, na cruz de Cristo. Na cruz foi feita completa expiação por todo o
pecado na natureza do crente e na sua consciência. Por isso, Deus não necessita
ainda de mais propiciação. Não precisa de qualquer coisa mais para despertar o
Seu coração pelo crente. Não precisamos de Lhe suplicar que seja "fiel e
justo", pois a Sua fidelidade e justiça foram gloriosamente patenteadas,
justificadas e satisfeitas na morte de Cristo. Os nossos pecados nunca poderão vir
à presença de Deus, visto que Cristo, que os levou todos e os tirou, está ali.
Contudo, se pecamos, a consciência sente—deve senti-lo; sim, o Espírito Santo
far-nos-á senti-lo. Não pode deixar passar um simples pensamento vão sem ser
julgado. Então o nosso pecado abriu caminho para a presença de Deus? Terá
encontrado lugar na luz pura do santuário? Deus nos livre! O
"Advogado" está ali—"Jesus Cristo o Justo", para manter, em
integridade inquebrantável, o parentesco em que nos encontramos. Todavia,
embora o pecado não possa afetar os pensamentos de Deus a nosso respeito, pode
afetar e afeta os nossos pensamentos em referência a Ele ('). Embora não tenha
acesso à Sua presença, pode chegar à nossa, da maneira mais triste. Embora não
possa ocultar o Advogado dos olhos de Deus, pode encobri-Lo dos nossos.
Amontoa-se, como uma nuvem sombria e espessa, sobre o nosso horizonte
espiritual, de sorte que as nossas almas não podem desfrutar a claridade
bendita da face do Pai. Não pode afetar o nosso parentesco com Deus, mas pode
afetar seriamente o dele. Que devemos, pois fazer? A Palavra de Deus responde:
"Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os
pecados e nos purificar de toda a injustiça".
Por meio da confissão desembaraçamos a nossa consciência; o
sentimento agradável da nossa posição de filhos é restaurado; a nuvem sombria
dissipa-se; a influência desanimadora desaparece; os nossos pensamentos em
relação a Deus são corrigidos. Tal é o método divino; e podemos dizer que, na
realidade, o coração que sabe o que é ter estado no lugar da confissão sentirá
o poder divino das palavras do apóstolo: "Meus filhinhos, estas coisas vos
escrevo PARA QUE NÃO PEQUEIS" (l Jo 2:l).
Em contrapartida, há um meio de orar pedindo perdão em que
se perde de vista o fundamento perfeito do perdão, o qual foi lançado no
sacrifício da cruz. Se Deus perdoa pecados, tem de ser "fiel e justo"
ao perdoar. Mas é evidente que as nossas orações, por mais sinceras e
fervorosas que sejam, nunca poderiam constituir a base da fidelidade e justiça
de Deus para perdoar os nossos pecados. Nada, salvo a obra da cruz podia
conseguir isto. Ali a fidelidade e a justiça de Deus foram plenamente
estabelecidas, e isso também com relação imediata aos nossos pecados atuais e a
sua raiz na nossa natureza. Deus já julgou os nossos pecados na Pessoa do nosso
substituto "no madeiro"; e, no ato da confissão, nós julgamo-nos a nós
próprios. Isto é essencial para se alcançar o perdão divino e restauração. O
menor pecado por confessar e por julgar, na consciência, manchará inteiramente
a nossa comunhão com Deus. O pecado em nós não requer este efeito; porém se
permitirmos que o pecado permaneça sobre nós não podemos ter comunhão com Deus.
Ele tirou os nossos pecados de tal maneira, que pode ter-nos na Sua presença; e
enquanto estivermos na Sua presença o pecado não poderá perturbar-nos. Porém se
saímos da Sua presença e comete¬mos pecado, ainda que seja só em pensamento, a
nossa comunhão deve, por necessidade, ser suspensa, até que, pela confissão,
nos libertemos do pecado. Tudo isto está fundado exclusivamente sobre o
sacrifício perfeito e a justa advocacia do Senhor Jesus Cristo.
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